sábado, 31 de maio de 2008

LITERATURA EM DESAFIO


E aí pessoal, um desafio para aqueles com espírito de “Sherlock Holmes”. Abaixo estão algumas pistas de uma mulher muito famosa da literatura brasileira. Ela é a personagem de um livro romântico e dará algumas dicas para vocês. Por elas, tentem descobrir quem ela é e a qual livro ela pertence. A primeira resposta correta no blog (nos comentários – fica fácil pela data da postagem), merecerá um...psiu, segredo!
( quadro acima :CARAM. Marina. A prostituta, 1952. 1 óleo sobre tela: color.; 6,65 x 5,55 m. Paris)

“EU SOU UMA CORTESÃ, ENTREI “NESSA” DEVIDO À PROBLEMAS FINANCEIROS. PRECISAVA SUSTENTAR MINHA FAMÍLIA. MAS QUANDO MEU PAI DESCOBRIU O QUE EU FAZIA PARA GANHAR A VIDA, ME EXPULSOU DE CASA. SEM TER A QUEM RECORRER FUI “ADOTADA” POR OUTRA CORTESÃ DE NOME JESUÍNA, MAS DE LONGE E SEM QUE NINGUÉM SOUBESSE, CONTINUAVA AJUDANDO MINHA FAMÍLA. QUANDO UMA AMIGA DA VIDA MORREU, DEI A ELA O MEU VERDADEIRO NOME E ASSUMI O DELA COMO MEU. A ANTIGA PESSOA QUE ERA MORRIA ALI, MAS EU NÃO ESPERAVA O QUE ESTAVA POR VIR – ESPECIALMENTE PAULO, AH PAULO!”

QUEM SOU EU??????????????????????????????????????????????



Jovens poemas II - 2º E

Olá pessoal , como dizem alguns "a paciência é virtude de poucos", como vocês tiveram de esperar mais que os outros, eis então quatro poemas da sala, certo?!

EM APUROS

O Ronaldo contundido
Não quis passar o feriadão batido
Resolveu se divertir
Ma não esperava o que podia vir

Com três travestis se enrolou
Sem saber, muito feliz ficou.
Depois de muita azaração,
Olha que decepção!

Ali de mulher, não tinha nada
E ele sem saber onde por a “cara”
Tentou se esquivar
Mas o transex já estava a pensar...

Com seu automóvel quis ficar
E vinte cinco mil lhe tirar
Se ele realmente tivesse pensado,
Não estaria sendo criticado.

José Andrade 2º E

A VIOLÊNCIA CONSTANTE NA CIDADE

Fico espantado ao ver o jornal
Com tanta violência na cidade.
Mas hoje em dia é tão normal,
Que já não assusta mais a sociedade.

Pessoas brigando a troco de nada,
Crianças chorando, mulheres desesperadas.
Com tantos rostos no meio da multidão,
Sou apenas mais um com o coração na mão.

Às vezes penso em me esconder,
Porém não sei se vale a pena
De qualquer forma eu vou sofrer,
Pois ninguém resolve esse problema!

Imaginando fico como fora essa cidade antigamente,
O brilho nos olhos, as pessoas tão sorridentes.
Eu vou sonhar, esquecer da realidade,
Pois só nos sonhos, não existe nenhuma maldade.

José Anderson 2º E


O PRECONCEITO

Não dá para acreditar,
Que hoje ainda exista preconceito
Nós temos que parar pra pensar,
Talvez ainda haja um jeito!

Preconceito de cultura, cor,
Classe social.
Pra que causar tanta dor?
Ninguém segura esse mal.

O homem de paletó
Critica o de tatuagem
Ele se acha o melhor
Insiste em contar vantagem.

A moça que diz ter bons modos
Não tem nenhuma consideração
Ela maltrata os idosos
E não dá seu lugar no vagão.

Desigualdade e preconceito
Será que ainda fica pior?
Só não fica se descobrimos que o respeito
É a fórmula de um mundo melhor.

Caroline Martins e Cláudio Silva 2º E


BRASIL

Quando os portugueses
Resolveram explorar
Acharam um Brasil
Sem ninguém pra comandar.

Sem ninguém
Pra regras ditar,
Começaram a abusar,
Começaram a roubar.

Achando que estavam
A nos melhorar,
Conseguiram nos modificar,
Mudaram até nosso jeito de andar.

Até hoje estão a nos enganar,
Sem saber que nessa terra,
Existe gente disposta a ajudar,
Acreditando que o Brasil
Ainda pode melhorar,
Sem ninguém para explorar.

Nicole Ariane 2º E

terça-feira, 20 de maio de 2008

Há tempo ...

Pessoal do 2º E

Eu não me esqueci de vocês, não! Nem poderia...

Não publiquei os textos de vocês ainda, pois não fizemos a seleção, ou seja a votação dos outros alunos.

Aguardem mais um pouquinho,certo!

Abraços

Vera

domingo, 18 de maio de 2008

Jovens poetas




Aqui, caro leitor, abro espaço para a literatura feita por meus alunos. Vou contextualizar o trabalho. O assunto das aulas que antecederam este trabalho foi o texto como veículo de contestação, crítica social. Para isso, alguns textos foram analisados como apoio: Verdade, Honra e Vergonha – Gregório de Matos, Juiz de Paz da roça de Martins Pena – músicas: Caviar de Luiz Grande/Marcos Diniz/ Barbeirinho do jacarezinho, 2001 e Ideologia de Cazuza e Frejat. A proposta a seguir é que os alunos fizessem seu próprio texto de crítica social em forma de poema. De cada sala e por eleição, os próprios alunos escolheram dois poemas para serem publicados no Blog, eis então os críticos poetas representantes de cada turma:


1) ELOGIO DE MAMÃE NÃO CONTA, NÃO!

O que falta na realidade
É um homem de verdade.
Se acha o gostosão,
Dirigindo o carrão.
Elogio de mamãe não conta, não!

Acha que se tocar a buzina,
Eu já vou pular em cima.
Se toca, eu não sou gasolina!

Tem carteira recheada,
Mas fica melhor de boca fechada.
Quantidade não quer dizer qualidade.
O que me atraia em um homem
É a humildade.

(Jéssica Alecsandra – 2º A)


2) HOMEM X MULHER

O homem e a mulher
Nenhum dos dois sabe o que quer.
Um dia é só amor,
No outro é só horror.

É como dia e noite,
Noite e dia...
Elas dizem: “Você só sabe reclamar!”
Eles dizem: “Você só sabe chorar!”

Enfim cada um no seu lugar
Nenhum dos dois sabe o que quer
Mas o que importa é só se amar.
Porém, que homem entende uma mulher?

Elas: carinhosas?
Eles: infiéis?
Elas: orgulhosas?
Eles: fiéis?

Vivendo com as diferenças
Ninguém sabe o que quer
Porém a realidade é...
Homem x Mulher.

(Franciele Feliciano e Tamires Cássia 2ª A)


3) GAROTOS E GAROTAS

Garotos educados com dinheiro.
Garotas que só pensam no cabelo.
Em qual loja? De que marca? Em que lugar?
Esses riquinhos só pensam em gastar.

Ele com seu carrão vermelho.
Ela com silicone no traseiro.
Shoppings, clubes, festas e bares,
Eles estão em todos os lugares.

Talvez um dia, eles verão
O quanto gastaram em vão.
Talvez um dia, alguém amadureça
E tire essas coisas da cabeça.

Não é a minha intenção criticar
Mas essas coisas tem que acabar.
Enquanto crianças morrem de fome,
Vocês não dão valor ao que comem.

(James Felipe 2ªB)

4) QUE VEXAME

Ele é um jogador
E sabe se vestir
Diz que pega mulher,
Mas só pega travesti.

Ele joga bola
E morou na Itália.
Será que dá esmola
Ou será que usa saia?

Ele já foi casado
Mas durou só um mês.
Hoje ela beija sapo
E ele pega gay.

Ele chamou duas mulheres
Mas veio dois “travecao”.
Que vexame, um fenômeno
Contribuindo para prostituição.

(Jean F.F. Silva e Thiago da Silva – 2ª B)

5) DISCRIMINAÇÃO

Ninguém tem o poder de discriminar alguém
Porque ninguém é igual a ninguém
Ninguém é perfeito,
Todos nós temos virtudes e defeitos.

É um tal de “gordinho” ali,
É um tal de “feinho” aqui,
É um tal de “neguinho” lá
É um tal de “pobrinho” cá.

Vivemos em uma sociedade
Em que quase não se fala com sinceridade
Às vezes impera a falsidade
Mas todos temos qualidades.

O preconceito fala mais alto,
A discriminação vai mais além.
Respeitem um ao outro,
Pois ninguém é igual a ninguém.

(João Batista, Joel Almeida
e Patrícia Moreira – 2ª C)

6) DESIGUALDADE SOCIAL

A cor não distingue a raça.
O dinheiro não distingue o caráter,
Mas todos precisamos
De uma pessoa que faça.

Faça um mundo melhor,
Com coisas diferentes
Para sermos pessoas felizes,
De caráter, verdadeiramente gente.

Terra boa, tão boa
Que dá pra se ver
Comida jogada no lixo,
Mas nenhum grão pra se comer.

Justiça e injustiças,
Pois é, povo brasileiro
Que não tem preguiça,
Porque acima de tudo é guerreiro.

(Jéssica Gama e Laís Propércio – 2º C)

7) LÁGRIMAS DE ANJO

Pai, por que fazes tamanha maldade comigo?
Pai, não jurastes ser meu fiel amigo?
Minhas pequenas mãos te acariciam,
Enquanto minha morte providenciam.

Clamo por seu socorro, enquanto sou agredida.
Ao ver sua frieza, vejo em Deus, minha única saída.
Bruxa malvada, tire suas mão de mim!
Logo encontrarei minha mãe, e isso acabará enfim.

Soltas meu braço e vigiai minha queda artificial.
Soltas meu braço, porque é meu pai, é amante do dinheiro e do mal.
Me liberte cruelmente dessa sociedade alicerçada em “notas de cem”.
Soltas meu braço e cairei em mãos que hoje não lhe convém.

Envolvida em tamanha luz.
Daqui de cima, vejo uma humanidade que, por si só, não nos conduz.
É movida de covardia e falsidade, pais pobres criam calos em meio ao tédio.
Pais pobres vêem seus filhos morrerem, tudo por causa de um caro remédio.
Isso me fez chorar, enquanto caía daquele prédio.

(Rony de Souza e Bruno0 Oliveira- 2ª D)
Desenhos: Rony de Souza - Lindooooos!


8) "QUE PAÍS É ESSE?”

Que país é esse em que vivemos?
Com muita miséria, dor e sofrimento,
A desigualdade e o racismo é um tormento.
E a cada dia, ele vai se perdendo.

Esses problemas causam fúria e violência,
Mas essa é a conseqüência,
Bocage disse que é uma “desonra”.
O que falta é “Verdade, Honra e Vergonha”.

É justo tudo isso que passamos?
Poucos têm muito e muitos nada têm.
Onde o povo anda penando
Num País que “Deus é uma nota de 100”.

Esperamos que no futuro isso se torne passado,
Que neste País, as pessoas vivam lado a lado,
Que racismo, miséria e violência não existam mais;
Pois um País melhor é a gente quem faz!

(Clécio Oliveira e Adriano Oliveira – 2º D)


2º E – AGUARDA SELEÇÃO.

Não há pedras no caminho que nos impeçam de caminhar



Luciano, 16 anos, aluno do 2º colegial F, é um rapaz calmo, estudioso sem necessariamente precisar ser “CDF”. Lecionei para ele nos anos de 2005 e 2007 (7ª e 8ª séries), mas conheço parte de sua família, pois já fui professora de seus irmãos Laércio e Leidiane e, sinceramente, gostaria de saber qual a receita que os pais deles têm para formar jovens tão educados, comprometidos e inteligentes.
Sempre que Luciano me vê, abre um sorriso e uma voz, já modificada pela idade adulta que se aproxima, dizendo:


- Olá, professora Vera!

Não sou a professora dele neste ano, mas há algumas semanas ele me encontrou pelos corredores da escola e perguntou se eu queria ler o livro que ele escrevia. É isso mesmo, caro leitor, ele está escrevendo um livro e seu grande sonho é publicá-lo. Fico imaginando quantos adultos tremem diante de umas palavrinhas que tem de escrever, enquanto um garoto – no bom sentido, Luciano – escreve um livro. A história é bem original e criativa. Resolvi então fazer uma entrevista – ainda que informal – para descobri um pouquinho da obra dessa promessa da futura literatura brasileira e entender o que o levou a tamanha façanha pelo mundo das letras.

Sala dos professores da escola, dia 7 de maio de 2008, Luciano e eu. Ele um pouco tímido, não sei se pela característica da sua personalidade ou se pela situação:

Ler é o Máximo: Luciano, quando você desenvolveu o gosto pela leitura?

Luciano: Sempre gostei de ler. Talvez, o princípio foi quando meu irmão Leandro resolveu escrever uma história e contava para mim, quando percebi não conseguia parar de ler a história dele.

Ler é o Máximo: Quer dizer então que toda família é escritora? Você recebe incentivos dos seus pais?

Luciano: Nem todos gostam de escrever. Minha mãe me incentiva, até comprou um livro pra mim que ela viu na escola que estudava chamado “O pequeno pássaro com frio” - conta a história da mãe que despreza o filho, falando coisas feias pra ele, a criança tem que sobreviver sozinha.


Ler é o Máximo: E o seu pai?

Luciano: Acho que ele incentiva indiretamente, ele não fala muito, não.

Ler é o Máximo: Que tipo de livros você lê?

Luciano: Gosto de livros informativos, ficção científica, daqueles de conscientização que falam da Amazônia, drama, mas principalmente gosto de notícias, revistas, jornais.


Ler é o Máximo: Você já escolheu uma carreira?

Luciano: Não sei, ainda. Agora estou achando interessante a área de Direito.

Ler é o Máximo: Fale-nos um pouquinho do seu livro.

Luciano: O nome dele é “GUARHUS – O SEGREDO DAS PEDRAS”, conta a história de que nos tempos atuais a humanidade tem poderes especiais, gerados por pedras que caíram do céu numa época passada. Um grupo de colegas decide entender a origens desses poderes. Essa busca causa nos amigos uma série de conflitos antigos e os envolvem em grandes aventuras.

Ler é o Máximo: É verdade que seus personagens foram inspirados nos seus colegas de escola?

Luciano: É, mas não todos os traços.

Ler é o Máximo: Por isso que alguns deles dizem que você fez um livro deles?

Luciano: Mais ou menos. O personagem Leddi, o protagonista que controla o poder das águas trazido pela pedra azul e que aparentemente é o mais fraco da história tem como inspiração minha irmã Leidiane, mas ele tem mais características minhas que dela.

Ler é o Máximo: Cada pedra traz um poder. Quantas são ao todo?

Luciano: Conhecidas, cinco: azul, amarela, verde, vermelha e branca. Duas ainda são desconhecidas: cinza e preta e quem encontrá-las terá uma grande surpresa.

Ler é o Máximo: Seu livro, na verdade, conta duas história paralelamente, não é?

Luciano: Sim, as aventuras e conflitos do grupo de colegas na época presente e a história de como a humanidade conseguiu as pedras e os poderes numa época passada.

Ler é o Máximo: Nossa que legal, Almeida Garrett no livro “Viagem a minha terra” conta duas história assim, paralelamente. Luciano você tem a intenção de publicar seu livro?


Luciano: Gostaria muito, mas sei o quanto é difícil. Ele já tem 7600 palavras escritas.

Ler é o Máximo: E como surgiu a idéia de escrever o livro?

Luciano: Não sei, professora, surgiu de um dia comum (ele sorri timidamente). Escrevo para deixar um pouco de mim, as palavras se perdem, o escrito, não.


Ler é o Máximo: Desejo muito que seu livro seja publicado e quando isso acontecer gostaria de uma dedicatória...rsrsrs

Luciano: Muitos já me pediram...rsrsrs

Ler é o Máximo: Então, um exemplar autografado, certo?


Luciano: Certo!


Nos despedimos e ele sai, um arrepio de felicidade percorre o meu corpo. As palavras de Luciano martelam na minha cabeça, é para isso que a literatura também serve, daqui há anos, não restará vestígios de nós mesmos, que marcas deixaremos no mundo, alguns passaram por ele sem se quer arranhá-lo. Outros imprimirão suas palavras como carimbos permanentes: “Escrever é deixar uma parte de si para posteridade”. Quantos Lucianos existem nas escolas, sem que seu talento seja reconhecido.

Lu, meu querido, fé, força, torço para que você deixe sua marca no mundo.

Vera.

domingo, 11 de maio de 2008

Meu pé de laranja lima



Liminha é meu aluno do 2º E, muito popular na escola: boa aparência, falante, meio sedutor até; mas na última segunda-feira, ele me fez "ganhar o dia", ou melhor "a noite", me fazendo o elogio mais simpático que uma professora de literatura pode receber.





Não, limpem os pensamentos ruins da cabeça, meninos!

Ele não me paquerou e não me disse nada ousado. Neste sentido, todos me respeitam. Um respeito alegre e jovial, por sinal.


O caso foi o seguinte: como de costume, cheguei na sala dele e mencionei as notícias do blog, para quem quisesse acessar, comentei sobre Pe. Antônio Viera, um pouquinho do "Sermão aos peixes" e iniciei a matéria da aula.


De repente, meio ressabiado Liminha me diz:

- Professora, me empresta?


- Oi, Liminha, empresta o quê?


- O livro...


- Do Martins Pena?


- Não, o do padre...


- Padre Antônio Vieira? Você quer ler...Vieira?


- É, o "Sermão".

- Sério?


Dando um sorriso discreto, meio escondido para ninguém ver, ele acenou com a cabeça!

Ganhei o dia! Ganhei a noite! Ganhei...um leitor!



Esse foi o meu elogio mais doce da semana, tão doce quanto um pé de laranja lima... que por sinal é nome de livro e de uma belíssima história, assim como esta.



Pra quem se interessou, aproveite a conexão e procure a sinopse de "Meu pé de laranja lima" de José Mauro de Vasconcelos em http://pt.wikipedia.org/wiki/Meu_P%C3%A9_de_Laranja_Lima ou em outros e se delicie com essa doçura de história.


Quanto a Liminha, meu aluno, providenciarei o mais cedo possível o livro.





Sinal que o Blog começa a colher suas primeiras laranjas, digo, frutos.

Martins Pena com sotaque nordestino

Eu havia dito aos meus alunos que este Blog não seria um lugar de contar apenas meus"causos" da sala de aula, mas sobretudo o espaço de produção de leitura e produção de literatura, a deles, produzida por eles também.

Não menti, a intenção é justamente esta!

Contudo na edição de hoje contarei a vocês, meus alunos e leitores, como um escritor carioca do século XIX, ganhou um sotaque elegante e, sobretudo, criativo, produzido por um aluno e como outros transformaram um texto já excelente em uma verdadeira obra de arte, em todos os aspectos, incluindo a interpretação.

A atividade aconteceu na quinta, 9 de maio. Estudávamos um fragmento de "Juiz de Paz da roça", de Martins Pena, dramaturgo conhecido por seu humor (comédia de costumes) e ironia. No trecho citado,o personagem de Francisco Antônio, casado com Maria de Jesus e que recebeu por dote uma égua, reclama ao juiz a propriedade de um potrinho "filho da égua da sua mulher" com o "cavalo do seu vizinho José da Silva".

Claro, como era de se esperar, a peça brinca com a ambigüidade das palavras.

Pedi aos meus alunos, que "modéstia à parte são excelentes nesse tipo de atividade" que dramatizassem a peça e fizessem as adaptações possíveis. Assim, com praticamente 15 minutos de ensaios, o 2º A apresentou para o 2º B e depois para o 2º E; o 2º E para o 2º D e por sua vez o 2º D apresentará para o 2º C. Foi um show, cada grupo adaptava o texto com sua "dose de classe" e aquilo que achava relevante.


Mas, algo muito interessante aconteceu: no 2º E, um aluno chamado Anderson, geralmente quieto, que senta no famoso "fundão da sala de aula", se candidatou para fazer o papel de Fransciso Antônio, representado como o brigão. Havia um alvoroço geral na sala de aula e um barulho produtivo. Entre os gritos de quem faz o quê até a hora de apresentar para a outra sala, a sensação era a da estréia de uma "grandiosa produção teatral".

Quando na cena em que Franscisco Antônio entra trazendo José da Silva pelo "gangote", Anderson "me sai" com esta peróla:

- Ora, seu cabra da moléstia, devolva o "filho da égua da minha mulher" senão faço um buraco no seu bucho e passo por dentro dele!

RSRSRSRSRSRSRS... NA PLATÉIA E NOS ATORES TAMBÉM, AINDA QUE DISFARÇADO POR CAUSA DA CENA...


Sinceramente, acho que Martins Pena deve ter aplaudido muito a encenação das minhas turmas do 2º colegiais e deve ter imaginado que Francisco Antônio, sendo na peça português, ficou extremamente charmoso com seu sotaque nordestino!


Quanto à turma do 2º E, elegeram por unanimidade a atuação do Anderson como a melhor entre todas.


Eu descobri entre as turmas: - não vou citar mais outros nomes em particular por receio de esquecer de algum - 2º A e E artistas natos.




Quando ao Anderson - eu o elejo como o novo Mateus Nachtergaele de Guarulhos!




Obs.: Vocês observaram que eu diminuir o colorido das letras? Pois é, um aluno comentou que estava colirido demais ou que tinha a cor rosa demais! Resolvi "manerar" um pouco, para atender a alguns pedidos, afinal o espaço é nosso!

Desculpe Clécio, força do hábito!


RSRSRSRSRS!



Para todos, o fragmento estudado e representado:

Juiz (assentando-se): Era muito capaz de esquecer. Sr. Escrivão, leia o outro requerimento.

Escrivão (lendo): Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. “Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só que o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava Maria tem um filho que é meu, peço a V.S.a mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher”.

Juiz: É de verdade que o senhor tem o filho da égua preso?

José da Silva: É verdade, porém o filho me pertence, pois é meu, que é do cavalo.

Juiz: Terá a bondade de entregar o filho a seu dono, pois é aqui da mulher do senhor.


José da Silva: Mas, Sr. Juiz...

Juiz: Nem mais nem menos, entregue o filho, senão, cadeia.


José da Silva: Eu vou queixar-me ao Presidente.

Juiz: Pois vá, que eu tomarei a apelação.

José da Silva: E eu embargo.

Juiz: Embargue ou não embargue, embargue com trezentos mil diabos, que eu não concederei revista no auto do processo!

José da Silva: Eu lhe mostrarei, deixe estar.

Juiz: Sr. Escrivão, não dê anistia a este rebelde, e mande-o agarrar para o soldado.

José da Silva (com humildade): vossa Senhoria não se arrenegue! Eu entregarei o pequira.

Juiz: Pois bem, retirem-se; estão conciliados. (Saem os dous.) Não há mais ninguém? Bom, está fechada a sessão. Hoje cansaram-me!

PENA, Martins: Juiz de Paz da Roça . Disponível em: http;//vbookkstore.uol.com.br/nacional/misc/juiz.shtml

domingo, 4 de maio de 2008

A roqueira que deveria ler Pe. Antônio Vieira


Não sei se vocês já ouviram falar do Padre Antônio Vieria: veio para o Brasil aos seis anos de idade em 1614 e juntou-se à Companhia de Jesus em 1623. Lutou muito pelos direitos dos índios e era chamado por eles de Paiaçu (grande Padre/ pai em Tupi).


Na literatura é estudado no Barroco e de sua obra podemos destacar os seus Sermões.


É, queridos leitores, aqui entra mais um dos meus "ilustres" alunos: na verdade, aluna, Jéssica, que por suas características, se aproxima mais da segunda geração do Romantismo (lembra dos góticos?) que do Barroco. Mas não! Contrariando as minhas expectativas, ela me fez voltar no tempo, me fazendo lembrar do Padre Antônio Vieira e seu "Sermão aos peixes"! (...que eu fui obrigada a ler no 1º ano do colegial - antes que vocês pensem: praticamente ontem...não é mesmo?)


Não entendeu a conexão????


Vou explicar: eu tinha corrigido algumas atividade de sala de aula e estava mencionando as notas dos alunos e suas respostas. Peguei a atividade da Jéssica, já falei que ela curte rock, se veste de preto e o pai é músico?Não!? Pois é, Jéssica tem a poesia no sangue e nenhum freio na língua, meus ouvidos que aguentam! O que não a impede de ser uma excelente aluna e muito crítica, além de extremamente sorridente- nisto ela também contraria os góticos. Bom, olhei a prova da Jéssica e disse:


- Nossa, Jéssica, que conclusões legais, as melhores que encontrei! Só um errinho, 9,5.


- Sério, professora? - Ela disse meio incrédula.


- Sim... e continuei a série de elogios...


- Isso porque eu não respondi a 2! Exclamou sem pensar...


- Sério, Jéssica? Agora era eu quem perguntava...Bom, então não é 9,5, é 8,5!


- Ah? por que eu fui falar... A senhora olhou bem?


- Espera um pouco... a 1 também está errada!


- Não olha mais nada, professora!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


- Desculpe, Jéssica, 7,5!


O sinal tocou e todo o 2º colegial "A" saiu rindo, inclusive eu. Pensei então no Pe Antônio Vieira. Acho que em algum lugar do seu "Sermão aos peixes" deve ter a idéia de que "o peixe morre pela boca!" Talvez não com essas palavras, mas uma como idéia esta, alguém tão sábio quanto Vieira não deixaria de fora... a isso não!


Vamos lembrar!




Estrutura dos Sermão aos peixes: Pe. Antônio, usando os peixes como alegoria, critica/mostra os defeitos e virtudes do ser humano:




Estrutura do Sermão
1. INTRODUÇÃO (Exórdio) - cap.I A partir do conceito predicável "vós sois o sal da terra": "Santo António foi sal da terra e foi sal do mar."


2. DESENVOLVIMENTO (Exposição e Confirmação) - cap. II a V"(...) para que procedamos com alguma clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas atitudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios."


2.1. LOUVOR DAS VIRTUDES"Começando, pois, pelos vossos louvores, irmãos peixes, ..."2.1.1. LOUVORES EM GERAL - cap. II (1.º momento da Exposição)a) "ouvem e não falam"b) "vós fostes os primeiros que Deus criou"c) "e nas provisões (...) os primeiros nomeados foram os peixes"d) "entre todos os animais do mundo, os peixes são os mais e os maiores"e) "aquela obediência, com que chamados acudistes todos pela honra de vosso Criador e Senhor"f) "aquela ordem, quietação e atencão com que ouvistes a palavra de Deus da boca do seu servo António. (...) Os homens perseguindo a António (...) e no mesmo tempo os peixes (...) acudindo a sua voz, atentos e suspensos às suas palavras, escutando com silêncio (...) o que não entendiam."g) "só eles entre todos os animais se não domam nem domesticam"2.1.2. LOUVORES EM PARTICULAR - cap. III (1.º momento da Confirmação)2.1.2.1. SANTO PEIXE DE TOBIAS"o fel era bom para curar da cegueira"; "o coração para lançar fora os demónios"2.1.2.2. RÉMORA"(...) se se pega ao leme de uma nau da índia (...) a prende e amarra mais que as mesmas âncoras, sem se poder mover, nem ir por diante."2.1.2.3. TORPEDO"Está o pescador com a cana na mão, o anzol no fundo e a bóia sobre a água, e em lhe picando na isca o torpedo, começa a lhe tremer o braço. Pode haver maior, mais breve e mais admirável efeito?"2.1.2.4. QUATRO-OLHOS"e como têm inimigos no mar e inimigos no ar, dobrou-lhes a natureza as sentinelas e deu-lhes dois olhos, que direitamente olhassem para cima, para se vigiarem das aves, e outros dois que direitamente olhassem para baixo, para se vigiarem dos peixes."2.2. REPREENSÃO DOS VÍCIOS"Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões."2.2.1. REPREENSÕES EM GERAL - cap. IV (2.º momento da Exposição)a) "(...) é que vos comedes uns aos outros."b) "Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos."c) "Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande."2.2.2. REPREENSÕES EM PARTICULAR - cap. V (2.º momento da Confirmação)2.2.2.1. RONCADORES"É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?"2.2.2.2. PEGADORES"Pegadores se chamam estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados, que jamais os desferram."2.2.2.3. VOADORES"Dizei-me, voadores, não vos fez Deus para peixes? Pois porque vos meteis a ser aves? (...) Contentai-vos com o mar e com nadar, e não queirais voar, pois sois peixes."2.2.2.4. POLVO"E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa (...) o dito polvo é o maior traidor do mar."


3. CONCLUSÃO (Peroração) - cap. VI"Com esta última advertência vos despido, ou me despido de vós, meus peixes. E para que vades consolados do sermão, que não sei quando ouvireis outro, quero-vos aliviar de uma desconsolação mui antiga, com que todos ficastes desde o tempo em que se publicou o Levítico."


Fonte:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Serm%C3%A3o_de_Santo_Ant%C3%B3nio_aos_Peixe