
É, querido leitor: dois românticos e uma discórdia.
Não, não estou inventando nada, quando falo em Castro Alves, refiro-me exatamente aquele autor romântico, autor de "Navio negreiro" e o belíssimo poema "Vozes d'Africa": "Ele é um besta!"????
Não, ele não brigou com o escritor francês romântico Victor Hugo, autor de famoso "Os miseráveis".
O caso é que aluno tem cada coisa, não é mesmo? Tenho um de nome Vitor Hugo, que do autor francês só tem o nome. Vitor Hugo, aluno do 2º colegial, meio franzino e muito extrovertido, faz amigos facilmente mas tem uma enorme dificuldade para controlar a "língua" e solta seus pensamentos como uma metralhora solta seus tiros, depois é só contar os mortos e feridos.
Pois é, na última segunda-feira eu aplicava uma prova lá na sala dele e como texto de apoio usei um poema de Castro Alves chamado "Boa noite, Maria", em que o autor romântico mais se aproxima do Realismo/Naturalismo que do próprio Romantismo. Nele, a mulher é bem real, carnal, inspiradora de desejos que podem e são saciados pelo poeta . A despedida "Boa noite, Maria" se repete várias vezes em algumas estrofes do poema e justamente por isso, eu perguntei na prova : Por que o poeta repete várias vezes "boa noite"?
Vitor Hugo, meu aluno, depois de um longo pensamento, não comum a ele, veio com a metralhadora ambulante:
- Ora, e eu vou lá saber por que o poeta diz "Boa noite" o tempo inteiro. Acho que na primeira, porque ele chegou na casa da mulher. Na segunda, porque ele se despediu dela, nas outras porque ele é besta mesmo!!!!
Gargalhada geral na sala de aula e lá se vai o silêncio da prova.
Qual não foi a minha surpresa ao constatar que ele havia escrito essa mesma resposta na prova.
Ah, Vitor Hugo, quantas idéias numa só cabeça ...
Descubra você, leitor o motivo de tantos "Boa noite" no texto de Castro Alves:
"Boa noite, Maria! Eu vou-me embora
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa noite, Maria! É tarde...é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio
Boa noite!...E tu dizes – Boa noite,
Mas não mo diga assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
-Mar de amor onde vagam meus desejos.
Julieta do céu! Ouve...a calhandra
Já rumoriza o canto da matina
Tu dizes que eu menti?...pois foi mentira...
...Quem cantou foi teu hálito, divina!
Se a estrela d’alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d’alvorada:
“É noite ainda em teu cabelo preto...”
É noite ainda! Brilha na cambraia
-Desmanchado o roupão, a espádua nua –
O globo de teu perito entre arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua...
[...] "
(CASTRO, Alves. Espumas fultuantes. Rio de Janeiro:
Edições de Ouro, s.d. p.67-68.)

